terça-feira, 8 de outubro de 2024

 

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A versão GAM@ está pronta para voar por aí.

Foram seis anos de estudos e pesquisas.

Grato a cada pessoa que se envolveu, de algum modo, nesse projeto.

Saúde e cuidado em liberdade, sempre!

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terça-feira, 22 de novembro de 2022

 


CONFERÊNCIA POR UMA NOVA POLÍTICA DE DROGAS: ACESSO À SAÚDE, DIREITO AO CUIDADO E COMBATE AO RACISMO

01, 02 e 03 de dezembro de 2022

Auditório Walnir Chagas – Faculdade de Educação – Benfica


Inscrições pelo link:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeWWZxA47MUprzUnAW4q1lXzasnmGDs2xov848yj60WCW2Wsg/viewform

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

 




POLÍTICA E AMIZADE EM TEMPOS SOMBRIOS

(GIORGIO AGAMBEN)



Transcrição A.R.

Tradução Peter Pál Pelbart

 

Em que ponto estamos?

Tal é a questão que nos cabe colocar hoje. Pois parece-me que não tomamos suficientemente consciência da mudança radical em curso, de ordem política, jurídica e cultural.

Digo isto pois muita gente, para não confessar sua impotência, finge continuar podendo agir no interior de normas que já não existem mais. Somos confrontados, desesperadamente, ao desmoronamento de um mundo. Mas não como o gostariam aqueles que pretendem governá-lo conforme seu interesse, e sim pela passagem a um mundo mais conforme às novas exigências da sociedade. O que está chegando ao seu fim agora é a era das democracias burguesas, com seus direitos, constituições, parlamentos. Para além do aspecto jurídico – não negligenciável, é claro – o que acaba é o conjunto de pressupostos substanciais deste mundo. Que aliás começaram a colapsar com a ideia de uma terceira guerra mundial e com os totalitarismos tirânicos e democráticos.

Apenas para tentar medir a amplitude dessa mudança. Hoje, no país em que vivo, as leis em vigor relativas aos que se chama de “no-vax” [contrários à obrigatoriedade da vacina) são dez vezes mais repressivas que as leis fascistas de 1938. Também lembro que no momento de sua instalação na Itália, o fascismo deixou relativamente poucas vítimas, ao passo que as políticas instauradas inescrupulosamente pelos nossos governantes causaram a morte de milhares de pessoas. O operador que tornou possível essa intervenção foi, como é evidente, a longa indiferença entre o direito e a política, que equivale ao estado de urgência.

Há quase vinte anos, em um livro onde tentava fornecer uma teoria do estado de exceção, eu constatava que o estado de exceção estava se tornando o sistema normal de governança.

Como vocês sabem, o estado de exceção é um estado de suspensão da lei; por conseguinte, um estado “sem lei”, porém incluído na ordem jurídica. Do ponto de vista técnico, foi definida uma separação entre a força da lei e a lei. Com o estado de exceção, de um lado a lei está teoricamente em vigor, mas ela não tem força, ela não se aplica, ela é suspensa; e de outro lado, disposições e medidas que não têm valor de lei, adquirem força de lei. Poderíamos dizer, no limite, que o que está em jogo no estado de exceção é uma força de lei flutuante, sem a lei.

Seja como se defina esta situação, que se considere o estado de exceção como anterior à ordem jurídica ou ao contrário, exterior a esta ordem, o que temos é uma espécie de eclipse da lei no sentido em que se a conhecia antes, e na qual – como num eclipse astronômico – a lei subsiste mas não irradia sua luz. O paradigma da lei é substituído pelo das cláusulas e das fórmulas vagas tais como estado de necessidade, segurança, ordem ou saúde pública, que sendo indeterminados, precisam que alguém intervenha para os determinar. Já não lidamos com uma lei ou constituição, mas com uma força de lei flutuante que pode ser assumida, como o vemos hoje, por comissões, indivíduos, médicos, especialistas totalmente estrangeiros à ordem jurídica.

Creio que nos encontramos aqui diante de algo da ordem do que Ernst Fränkel, num livro de 1941 em que tentava explicar a estrutura do Estado nazista, tinha nomeado “Estado dual”. O “Estado dual” é um Estado normativo, um Estado fundado na lei, ao qual se junta um “Estado discricionário”, um Estado das medidas de urgência, através das quais se exerce o governo dos homens e das coisas. Uma frase de Fränkel em seu livro é significativa: “Para sua salvação, o capitalismo alemão precisava não de um Estado unitário, mas de um Estado duplo, “arbitrário” na dimensão política e “racional” na dimensão econômica”.

É na descendência desse “Estado dual” que devemos situar o fenômeno cuja importância não poderia ser subestimada, e que diz respeito a uma verdadeira mudança na figura mesma do Estado. Refiro-me ao que os politólogos americanos chamam de “Estado administrativo” e que encontrou num livro recente sua teorização. Trata-se de um modelo de Estado no qual o exercício do governo extrapola a divisão tradicional entre os poderes constitucionais, legislativos, executivos e judiciários. E agencias não previstas na constituição exercem, em nome da administração e de maneira discricionária, funções e poderes que eram atribuição dos três sujeitos constitucionais competentes.

Trata-se de uma espécie de Leviatã administrativo. Um Leviatã puramente administrativo que supostamente age no interesse da coletividade, mesmo transgredindo o que está prescrito na Constituição, com o objetivo de assegurar e guiar não a livre escolha dos cidadãos, mas o que os teóricos chamam de navegabilidade, isto é, na realidade, a governabilidade segundo sua escolha.

Parece-me que é o que acontece hoje, quando vemos os poderes decisórios exercidos – ao menos é o caso da Itália – por comissões, sujeitos, médicos, especialistas e economistas totalmente exteriores aos poderes constituídos.

Através desses procedimentos factuais, a constituição é alterada de modo muito mais substancial do que quando isso ocorre através dos poderes de revisão previstos pelos textos da constituição, até ela se tornar, como o dizia outrora um discípulo de Marx, “um pedaço de papel”,. É bem significativo que tais transformações, através desse modelo que tentei mostrar, obedecem à estrutura dual do governo nazista. Talvez este seja agora o conceito mesmo de governo – de uma política “cibernética” do governo – que hoje cabe colocar em xeque.

Disseram que o Estado moderno vive de pressupostos que ele não é capaz de garantir. É possível que a situação que tentei descrever seja a forma pela qual essa ausência de garantias atinge sua massa crítica e o Estado moderno renuncia ao que era evidente, a saber, a sua capacidade de garantir seus pressupostos. Esta história chegou ao seu fim – e é este fim que estamos vivendo agora.

Creio que toda a discussão sobre o que podemos e devemos fazer deve partir hoje dessa constatação, de que a civilização na qual vivemos colapsou - uma sociedade baseada na finança doravante fez bancarrota. Que nossa cultura tenha estado na borda de uma bancarrota geral era evidente há décadas e os espíritos mais lúcidos do século XX o diagnosticaram sem reserva.

Não consigo esquecer que quando eu era bem mais jovem, Pier Paolo Pasolini e Elsa Morante, que eu frequentava nos anos 60, denunciavam a inumanidade e a barbárie que eles viam crescer em torno deles. Vistos de hoje, aqueles tempos nos parecem muito melhores que o nosso. Em todo caso, foi-nos reservada hoje a experiência nada agradável, porém mais verdadeira que a precedente, de não mais nos encontrarmos na margem, porém mergulhados nessa bancarrota, intelectual, ética, religiosa, jurídica, política, econômica, na forma extrema que ela tomou, e que é exatamente isto: o estado de exceção no lugar da lei, a informação no lugar da verdade, a saúde no lugar da salvação, a medicina no lugar da religião, a técnica no lugar da política.

Certamente, pode-se dizer que uma sociedade em bancarrota já não está viva. Pode ocorrer que as potências às quais somos confrontados hoje estejam espiritualmente mortas, mas combater um adversário morto não é mais fácil do que combater um adversário vivo. Ao contrário, pode ser uma tarefa mais difícil.

Os seres humanos não podem viver sem atribuir a suas vidas razões e justificativas, tais como o fizeram ao longo do tempo, através da religião, dos mitos, crenças políticas, filosofias ou teorias de todo gênero. Tais justificativas, ao menos na parcela da humanidade mais rica e tecnológica, hoje parecem ter despencado. Pela primeira vez, talvez, os homens se encontrem reduzidos à sua pura sobrevivência biológica, que eles parecem incapazes de aceitar.

Só isso pode explicar por que, em vez de assumir o simples fato de viver uns ao lado dos outros, escolheu-se instaurar um implacável terror sanitário, no qual a vida, sem justificativa ideal, é punida a cada instante por uma doença e pela morte.

O que fazer numa tal situação?

No plano individual, é claro, é preciso continuar na medida do possível a fazer bem o que buscou-se fazer bem antes, mesmo se já não parece haver motivo algum para o fazer. Talvez justamente porque não há mais motivo, é preciso continuar.

Contudo, não penso que isso seja suficiente.

Em um texto que não podemos deixar de sentir próximo de nós, já que se intitula Homens em tempos sombrios, Hanna Arendt se perguntava: “Em que medida continuamos comprometidos com o mundo e com a esfera pública, mesmo quando dela fomos expulsos?

É o que aconteceu com os judeus: “ tivemos que nos retirar”, diziam aqueles que tinham escolhido o que na Alemanha da época era designado com a expressão paradoxal de “imigração interna”. Nós nos encontramos nesse estado, expulsos ou condenados a uma imigração interna.

Nesse texto Arendt indicava “a amizade” como o possível fundamento para uma política em tempos sombrios. Creio que a indicação é justa. Com a condição de lembrar que a amizade, isto é, o experimentar uma alteridade no fato mesmo de existir, seja considerada como uma espécie de mínimo político. Um limiar que ao mesmo tempo une e separa o indivíduo e a comunidade. Ou seja, contanto que nos lembremos que se trata nada menos do que tentar constituir por toda parte uma comunidade na sociedade. É preciso tentar criar comunidades no interior da sociedade. Ou seja, face à despolitização crescente dos indivíduos, reencontrar na amizade os princípios radicais de uma politização renovada.

Digo isto sem renunciar à lucidez nem à esperança.

Se as potências que governam o mundo decidiram recorrer a medidas e dispositivos tão extremos quanto a biossegurança e o terror sanitário é porque temiam não ter outra alternativa para sobreviver. Se as pessoas aceitaram essas medidas é porque elas também sabiam, num certo sentido, que o mundo em que tinham vivido até então não podia continuar.

Não lamentamos que este mundo tenha acabado. Não temos nostalgia alguma pela ideia do humano e do divino que as ondas implacáveis do tempo apagam como um rosto de areia nas margens da História. Mas de maneira igualmente decidida, recusamos a vida nua, muda e sem rosto e a religião da saúde que o governo nos propõe.

 

Texto lido pelo autor no dia 30 de junho de 2022, na “Comissão Du.Pre”, e disponível em   https://youtu.be/vGVun3fmgWo

Diante do agravamento da situação no mundo e da escalada totalitária, o coletivo internacional L´indomabile e a comissão italiana Du.Pre organizaram um encontro em Paris no dia 29 de janeiro de 2022, com várias personalidades e coletivos da Itália e da França. A ideia era criar uma Assembleia internacional dos povos.


terça-feira, 17 de maio de 2022

IMPORTANTE!

 

"Comunidades Terapêuticas: levantamento inédito aponta falta de transparência e de padrões de políticas públicas"

Estamos divulgando algumas das conclusões que fazem parte do levantamento inédito realizado pela Conectas Direitos Humanos e pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Intitulado “Financiamento público de comunidades terapêuticas brasileiras entre 2017 e 2020”, o documento foi divulgado nesta segunda-feira (25).

As CTs (Comunidades Terapêuticas) – entidades privadas de privação de liberdade para tratamento de pessoas que fazem uso problemático de drogas – receberam, entre 2017 e 2020, o total de R$560 milhões do poder público. Todo esse montante, que é somado entre as esferas federal, estadual e municipal, tem tendência de aumentar nos próximos anos. De um ponto de vista orçamentário, a aprovação da Lei Complementar 187/2021, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro, dá direito às CTs de buscarem imunidade tributária, uma espécie de financiamento público indireto.

  Segundo o estudo, as Comunidades Terapêuticas oferecem, declaradamente, tratamento baseado no isolamento, na abstinência e na espiritualidade.  A pesquisa revela que não há padrão de fiscalização e transparência sobre o tipo de serviço contratado, sobre a composição de seu custo, dos seus insumos, dos produtos esperados e, principalmente, de seu impacto e de sua efetividade como política de tratamento, o que deveria orientar a administração pública.

 De acordo com a advogada Carolina Diniz, assessora do programa de Enfrentamento à Violência Institucional da Conectas e coordenadora do projeto que originou o relatório, a falta de definição precisa sobre a natureza das CTs dificulta o controle público e de setores da sociedade dedicados à defesa dos direitos humanos e ao acompanhamento do uso de verba pública.

 Na esfera federal o total financiado (2017-2020) em valores nominais foi de R$293 milhões, o que corrigido pelo valor da moeda para 2020, o montante atingiu R$309,3 milhões. O aumento de 2017 a 2020, em valores corrigidos, foi de cerca de 109%. A distribuição por região foi (em ordem): Sudeste (36%); Sul (28%); Nordeste (22%); Centro-Oeste (9%) e Norte (5%). Em proporção por 100 mil habitantes, o estado que mais recebeu foi Alagoas, seguido por Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 O relatório acompanha um parecer jurídico que analisa a Lei Complementar 187/2021, que incluiu as instituições CTs como elegíveis à Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social e, portanto, beneficiária de imunidade tributária. Segundo o parecer, a inclusão das CTs representa, na prática, a criação de uma quarta categoria de organização imune às contribuições sociais (impostos), ao arrepio da Constituição Federal.

 Além disso, criou-se um tratamento legislativo não isonômico com relação a outras espécies de pessoas jurídicas sem fins lucrativos atuantes nas áreas relacionadas, mas não reconhecidas como assistência social, saúde ou educação. A pesquisa ressalta ainda que a Lei Complementar foi aprovada  sem a realização de estudo de impacto orçamentário e financeiro, e, portanto, estimativa da renúncia fiscal do Poder Executivo, contrariando a previsão da Emenda Constitucional 95, através do Art. 133.

 

Fonte para você ler mais: https://www.conectas.org/noticias/comunidades-terapeuticas-levantamento-inedito-aponta-falta-de-transparencia-e-de-padroes-de-politicas-publicas/?utm_campaign=newsletter_-_abril_2022_pt&utm_medium=email&utm_source=RD+Station


domingo, 27 de fevereiro de 2022

 

O BRASIL TEM SUA PRIMEIRA FAZENDA LEGALIZADA
PARA CULTIVO DE CANNABIS

Margarete Santos de Brito em meio aos pés de maconha plantados
Foto: DANIEL RAMALHO

A “Associação de Apoio à Pesquisa e a Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi)”, foi autorizada a cultivar Cannabis para fins medicinais, na Fazenda Sofia Langenbach, em Paty do Alferes, no interior do Rio. A sentença judicia foi dada na última sexta-feira, dia 25/02.”

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

PESQUISA MOSTRA QUE COMPOSTOS DA CANNABIS/MACONHA PODEM PREVENIR COVID-19

 


         Fonte da imagem: GETTY IMAGES


Vejam que pesquisa promissora para nosso momento de pandemia.

Pesquisadores encontraram dois ácidos canabinoides da planta da espécie Cannabis Sativa (maconha) que podem impedir a entrada do coronavírus nas células humanas.

Um estudo feito em conjunto por pesquisadores da Universidade Estadual de Oregon e da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, ambas nos EUA, verificou que dois ácidos canabinoides, comumente encontrados em variedades de cânhamo (planta da espécie Cannabis Sativa) que são capazes de se ligar à proteína Spike do coronavírus, estrutura usada pelo Sars-CoV-2 para invadir as células humanas. Ao se ligarem à proteína S, o ácido canabigerólico (CBGA) e o ácido canabidiólico (CBDA) podem impedir que o vírus infecte as células.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

NOTÍCIA BOA: Pesquisa nas universidades públicas avançam no combate a Covid e outras doenças.

 

Foto: Shutterstock

Medicamentos estudados na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com pesquisadores da Escola Paulista de Medicina e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, e já aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são promissores no combate ao vírus da Covid-19, vírus da gripe Influenza e diminuição da proliferação do vírus HIV.

Mais detalhes em:

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ultima-hora/ciencia/medicamentos-desenvolvidos-na-ufc-e-aprovados-pela-anvisa-podem-inibir-replicacao-do-coronavirus-1.3179167

terça-feira, 30 de março de 2021

 

QUANTO CUSTA À GUERRA AS DROGAS?

 O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), lançou o relatório da primeira fase do Projeto “Drogas: quanto custa proibir”, coordenado por Julita Lemgruber, cujo título é “Um tiro no pé: impactos da proibição das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e de São Paulo”.

O CESeC calculou o custo, em valores monetários, da proibição das drogas, abrangendo diferentes áreas de gastos, como a segurança pública e a justiça criminal, de sete instituições que atuam referendando a proibição de drogas: Polícia Militar, Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, tribunais de Justiça, sistema penitenciário e sistema socioeducativo.

Indicam que com o valor de mais de R$ 1 bilhão gasto pelo Rio de Janeiro em 2017 nessa guerra, poderiam comprar 18 milhões de doses de vacina AstraZeneca ou quase 6.000 ambulâncias com UTI móvel ou ainda prover renda básica de R$ 600 mensais para 145 mil famílias por um ano.

Em São Paulo os R$ 4,2 bilhões despendidos, poderiam ter sido empregados para:  comprar 72 milhões de doses da vacina Coronavac, suficientes para vacinar 36 milhões de pessoas contra a Covid-19; comprar 27 mil ambulâncias com UTI móvel; beneficiar 583 mil famílias por um ano com um programa de renda básica equivalente ao auxílio emergencial

O relatório questiona o uso dessa dinheirama sem que haja eficiência nos benefícios que a sociedade brasileira tem como retorno.

Fonte: https://cesecseguranca.com.br/

 

 


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Antonio Escohotado: conselhos do vovô psicodélico

Por Cynara Menezes

Publicado em 1 de setembro de 2013.

Em: <http://socialistamorena.cartacapital.com.br/antonio-escohotado-conselhos-do-vovo-psicodelico/>

 

Conheci o trabalho do ensaísta Antonio Escohotado no final da década de 1990, quando morei na Espanha. Tinha me esquecido dele até que deparei outro dia com uma entrevista sua num programa de TV onde ele explicava porque, aos 73 anos, continua a usar maconha diariamente: “A maconha me traz uma espécie de lucidez depressiva que me cai bem”. Achei a frase interessante e decidi traduzir algo dele para vocês.

Escohotado é um dos maiores especialistas em drogas do planeta. É autor do monumental História Geral das Drogas (inédito no Brasil), um catatau com mais de 1,5 mil páginas. Mas a diferença dele para outros teóricos do assunto é que Escohotado também é usuário. Experimentou tudo e, como tal, pode falar de cadeira. Nesta entrevista que deu ao jornalista Juan Rendón em 2003 para a extinta revista LOFT, chacoalha os velhos (e os novos) conceitos sobre drogas.

Em primeiro lugar, considera que todas as drogas podem ser igualmente prejudiciais ou positivas –depende muito mais do usuário do que da substância em si. Em segundo lugar, não aceita que o viciado se vitimize, como é frequente. Pelo contrário, joga para ele a responsabilidade sobre o que faz da sua vida. Defende que não é a droga que leva alguém a agir de maneira negativa e destruir lares. É, isso sim, utilizada como desculpa por pessoas que já possuíam uma índole perversa. Dependendo de quem usa, e sabendo usar, qualquer droga pode trazer uma experiência enriquecedora.

“Tudo que a inteligência humana descobriu é neutro em si mesmo. Somos nós os que, dependendo da pessoa e da ocasião, tiramos as coisas de sua neutralidade e as fazemos boas ou más”, assegura. Pessoas com a mente fechada irão se escandalizar com as palavras de Antonio Escohotado. Pessoas com a mente aberta terão a oportunidade de olhar para as drogas de uma maneira completamente distinta. Boa leitura.

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Por Juan Rendón (maio/2003)

Antonio Escohotado é um professor de Filosofia e Metodologia das Ciências Sociais na Universidade Nacional de Educação à Distância em Madri que escreveu três volumes sobre a história geral das drogas. Este ano acabam de reunir suas três obras em um tomo de 1542 páginas. Seu trabalho se converteu em um dos recursos de informação mais usados pelos interessados na temática das drogas. Escohotado é o avô psicodélico da Espanha, o que mais sabe do assunto, o que experimentou tudo e conservou a lucidez para nos contar. Um sábio para muitos, um charlatão para outros. Até como perigoso foi catalogado. E se é, é porque suas ideias são convincentes e porque vão de encontro a muitas das posturas dos policymakers dos últimos tempos quanto à regulação das drogas. Aos 62 anos (hoje 72), Escohotado continua a usar a heroína para se inspirar e o tabaco para viver. Em vez de palavras etéreas e argumentos descabelados (como poderia se esperar de um veterano heroinômano), Escohotado utiliza um vocabulário sofisticado e um raciocínio contundente para expressar sua crítica à forma como é entendido atualmente o problema das drogas. Sua mente é audaz, perspicaz, e sobretudo prolífica. Escreveu vários ensaios com matizes antropológicos e filosóficos. Entre eles Realidade e SubstânciaDe physis a polisMajestades, crimes e vítimasO espírito da comédia, Rameiras e esposas e A questão do cânhamo. Compartilhou com LOFT sua maneira livre de ver o mundo.

Existe hoje algum problema com as drogas que a humanidade não teve antes?

Talvez a superabundância, porque, para cada substância psicoativa antiga, atualmente deve haver mil. Isto cria, de um ponto de vista positivo, muito mais meios para controlar e dirigir seus sentimentos, suas percepções e, por outro lado, muito mais temor na sociedade. É como o medo que, no século 17, o livre pensamento podia gerar.

Por que há essa superabundância?

Pelos pacientes trabalhos de sintetização química que foram feitos paralelamente à cruzada contra as drogas. As bruxas, os bruxos e os feiticeiros possuíam os depósitos do saber ecológico antigo, e mesmo que tenham sido esmagados pela erupção do monoteísmo com vocação universal –o bramanismo, o cristianismo e depois o islã–, seu saber acumulado nunca foi destruído. Permaneceu nas bibliotecas e coleções privadas. Quando a cruzada contra os bruxos começou a ceder, no final do século 17, praticamente todos os recursos que os feiticeiros herboristas tinham passaram a ser remédios respeitáveis. As farmácias e o que agora conhecemos como farmácias de manipulação se desenvolveram enormemente em meados do século 17. Desde então o arsenal farmacológico da humanidade deu a início a um crescimento sustentado, que desemboca em descobertas como o MDMA ou êxtase por Alexander Shulgin, a quem conheço muito. Shulgin é um gênio igual a seu pai. Sabem o que ninguém sabe sobre os químicos. Eles se juntam e saem com um pozinho que você toma e a vida muda. Isso é magia!

Seu livro lembra o importante que é para a disseminação das drogas a relação entre a religião, a magia e a medicina. E como é nas culturas xamânicas onde primeiro se começa a distribuir a droga. Mas essa distribuição se fazia com uma técnica e buscando um fim, o êxtase espiritual, por aí…

Sim, e com uns ritos muito, muito fechados. Inclusive as pessoas juram não dizer o que foi que lhes deram, como deram e o que sentiram. essa é a famosa reserva mística. É evidente que esse sentido místico se perdeu na cultura das drogas. As drogas proibidas são usadas hoje com finalidades lúdicas.

 

(O químico Alexander Shulgin em seu laboratório. Foto: Robert Houser)

E isso é parte do problema?

Não. Tomar drogas por razões lúdicas, recreativas ou de conhecimento, de introspecção, digamos, é algo correlacionado. O que acontece no terreno das drogas é algo mais básico ainda, que é a secularização. O que está em crise é o dogmatismo e a religião superficial. Antes o que havia eram coleções de súditos, e as drogas eram tomadas com objetivos. Mas já não queremos o “além”, já não queremos o céu. Estamos satisfeitos com esta vida. Não estamos dizendo, como Santa Teresa, “tão alta vida espero, que morro, porque não morro”. Como queremos esta vida, tomamos drogas para podermos nos controlar melhor, para sermos capazes de trabalhar melhor, para sermos capazes de nos entender e entender os outros, para curtir. Tudo isso é novo, porque já não há o contexto mítico ritual que obrigava às reservas místicas. Num mundo secularizado não esperamos tanto.

O senhor crê que as drogas ilegais, tal como são usadas no Ocidente, cumprem uma função cultural significativa?

Para a juventude são um autêntico rito de passagem, a cerimônia de amadurecimento, social e individual. Para as pessoas de 40, 50, 60 anos –muitos deles prisioneiros dos psicodélicos anos 60– são uma reiteração de costumes. Mas, para os jovens, são uma maneira de se pôr à prova social e individualmente. E isso ocorre em todo o planeta. Na Tailândia e no Vietnã há raves com uma periodicidade comparável às de Londres ou Montreal. E nas capitais do Amazonas também tem raves, com DJs, com drogas e com turistas dos quatro cantos do mundo.

Isso lhe dá algo de valor cultural ou é simples decadência?

Decadência existe no despotismo e no dogmatismo, porque reduzem a realidade, porque nos dão um mundo abreviado como se fosse um mundo real. No mundo das drogas não existe decadência. O que acontece é que entre os usuários das drogas, como entre os usuários de carros ou de jogos, há um setor que é viciante por natureza. A técnica é neutra. Tudo que a inteligência humana descobriu é neutro em si mesmo. Somos nós os que, dependendo da pessoa e da ocasião, tiramos as coisas de sua neutralidade e as fazemos boas ou más.

O que há de bom no consumo de drogas não prescritas por parte dos jovens?

Aprofundar-se na regra de conhecer a si mesmo, que segue o princípio socrático, o princípio da ética. O ritual de amadurecimento das sociedades ocidentais avançadas a princípios do século 21. Na prática, se vê se o ser tem bom ou mau gosto, se se controla ou não se controla; se debaixo de sua aparente educação esconde um monstro autoritário, rancoroso ou deprimido, ou se, pelo contrário –como diria Freud–, um id (quer dizer, um inconsciente) são e capaz de desfrutar. As drogas dão à condição humana mais controle, mais capacidade de enfrentar os desafios da vida. Quando vem a proibição, também vem a desculpa vitimista que permite às pessoas dizer essa grande falsidade: “Aí, eu não queria, mas sem me dar conta me tornei escravo e agora sou um pobre farrapo humano. Me permito roubar meus concidadãos e não cumprir minha palavra”.

 


                                                             (antigo anúncio de cocaína: inofensivas gotas)

Acredita que todas as drogas deveriam ser legais?

Mas claro! Imagina. É preciso drogar a proibição. Legalizar as drogas me soa tão disparatado como legalizar o gosto pela pintura, passear ou ler. Não se pode legalizar uma atividade humana que é um direito civil imemorial. Em meu entendimento a lei se fez com certas metas, como a Lei Seca nos EUA. Depois de um tempo foi mais contraproducente do que producente. Digamos que fizemos uma experiência com a proibição e a experiência falhou. Na Europa, a guerra às drogas terminou faz pelo menos dez anos. Qualquer um, praticamente, sem nenhum risco, sempre e quando seja para seu próprio uso, pode conseguir toda a droga que tenha vontade e nunca vai chegar perto de uma delegacia ou posto policial. E há muito mais pontos de venda de drogas ilegais do que se vendessem como antes, nas farmácias e erboristerias.

Nos tempos da Roma imperial havia 900 tendas que vendiam ópio, além de outras substâncias. Mas agora em Madri ou em Nova York há entre 45 mil e 80 mil pontos de venda.

Se as pessoas podem conseguir de qualquer maneira, o que há de negativo na proibição?

Não é tão negativo. O que faz é criar um fenômeno mundial de desobediência civil e, portanto, de recuperação da essência cidadã. As pessoas se deram conta de que as leis não foram feitas para nos proteger de nós mesmos, mas para nos proteger dos outros. Portanto, uma lei como a que proíbe as drogas, que pretende nos defender de nós mesmos, é uma usurpação e um disparate, pura corrupção do Direito. Digamos que a proibição teve um efeito positivo de gerar desobediência civil, que serve para nos dar a sensação e a certeza de que não somos súditos, somos cidadãos.

Mas e o argumento segundo o qual a droga nos faz irresponsáveis e perigosos aos demais cidadãos?

É uma profecia auto-cumprida do inquisidor farmacológico. Até a proibição, que começa nos EUA a princípios do século 20, praticamente não existia o conceito de vítima involuntária das drogas. A partir da proibição, quando meteram na prisão milhares de médicos e farmacêuticos porque não queriam cumprir as ordens do Executivo, apareceram umas pessoas que vivem dessa desculpa. Agora as drogas te dão desculpa para não fazer nada, para ser um merda com a tua família, com teus amigos e com os outros. Você é um farsante, um iludido, mas quem te deu os argumentos e as bases para se comportar assim foi quem proibiu as drogas e lhe pôs o estigma de “coisas demoníacas”.

Há substâncias como a heroína que, uma vez que você as toma, se sente disposto a fazer coisas que sem elas não faria, pela mera necessidade de consegui-las…

Isso não é correto. A heroína é muito menos viciante do que o tabaco ou o café. 100 a 200 vezes menos viciante. Eu, por exemplo, uso heroína há 35 anos, mas assim, on and off, como dizem os americanos. Nunca tomo por mais de um par de dias seguidos porque me dá ressaca, claro. E com o passar dos anos fui baixando a dose. A heroína é uma substância de um efeito sutil que não se nota muito, é preciso ter os sentidos muito aguçados para você notar em que te afeta. Nas primeiras horas você sente muita energia, como se fosse uma espécie de anfetamina, mas suave, sedosa. É um alívio para as pessoas coléricas ou irascíveis. O método da injeção, que é o que deu sua má fama, já é arcaico. Agora se toma através do chasing the dragon. Fuma-se em um papel alumínio ou se cheira. O sujeito vampiresco, esse junky que se injetava, era na realidade um discípulo direto do inquisidor farmacológico, e como o inquisidor farmacológico vai perdendo o sentido, tampouco têm sentido essas práticas de se injetar na veia e pegar enfermidades horríveis.

O senhor acha que estão perto de cair as barreiras e de que haja liberdade total em relação a estas substâncias?

O que ocorre é que este tipo de cruzada nunca se resolve com um decreto que diga: “senhores, nos equivocamos, era permitido pensar livremente,” ou “era permitido praticar magia”. O Vaticano e as igrejas protestantes ainda não disseram “matamos 300 mil pessoas na fogueira por praticar a magia”, mas todo mundo sabe que a magia é um direito civil que todos têm. A proibição segue um assunto de Direito e em alguns países acarreta altíssimos riscos, até a pena de morte. Há 33 países com penas de morte. Mas no mundo civilizado, sobretudo na Europa, a proibição de fato não existe. Claro, os principais traficantes de drogas no mundo são pessoas ligadas à polícia e aos governos.

O senhor teve alguma vez problemas de vício ou dependência?

Sou viciado em tabaco. O que ocorre é que sou porque quero, porque não me parece que a vida valha a pena sem meus cigarros. Sigo crendo que é um absurdo falar em liberdade separada de responsabilidade. As liberdades que tomamos são responsabilidades que assumimos. É possível que, por fumar, abrevie minha vida ou tenha um futuro muito ruim. Mas não sou viciado em nenhuma outra droga. Por exemplo: adoro a heroína, embora compreenda que é mais difícil tomá-la com mesura e sensatez por todo o imaginário social que a rodeia. Como se supõe que a droga é viciante por excelência, as pessoas entram por esse caminho muitas vezes porque lhes convém, porque têm problemas emocionais, sociais, profissionais ou psicológicos, e se refugiam aí como uma desculpa muito boa para dramatizar sua necessidade de ajuda e de dependência.

Parece bastante irônico que seja a droga menos emocionante a única que lhe viciou.

Quando lhe falta energia, você dá várias tragadas e muito fortes, e imediatamente sobe seu tom energético. Quando necessita tranquilidade, você dá tragadas espaçadas e não profundas e te tranquilizam. É a única droga que tem efeito duplo e além disso estimula a inteligência. O tabaco é a única droga sagrada desde o Alasca até a Amazônia.

Acredita que o tabaco está perdendo a briga?

Não a perderá nunca. É forte demais, é gratificante demais para o usuário. Poderá inclusive haver uma grande rebelião se insistirem em persegui-lo. Imagine se, através de meios modernos como a internet, os usuários começarem a fulminar as companhias aéreas, para começar: somos 200 milhões de usuários de tabaco. Lufthansa, se você não mudar em dois meses, ninguém viaja. Dando-lhes ultimatos. As companhias aéreas fazem economias em escala, de repente ficam sem 10 milhões de clientes em um mês e pum!, bancarrota. Além de outras medidas mais simples, como por exemplo nos EUA, onde há regras tão severas que aterrissam um avião se alguém acende um cigarrinho… se poderia conseguir que, de repente, às dez para as cinco, 100 milhões de americanos acendam seu cigarrinho em aviões. Toda vez que os seres humanos se puseram de acordo conseguiram coisas assombrosas. Cortaram a cabeça de Luís 16.

Uma droga tão massivamente utilizada como a maconha afetou negativamente a cultura?

É curioso, porque agora descobriram seus números utilidades médicas e terapêuticas. Tem, inclusive, todo tipo de princípios nutritivos. E é extraordinária até para conter a erosão. Com ela se pode fabricar papel melhor do que o que temos.

 

(um feliz usuário de maconha medicinal na Califórnia)

E o que tem de mal?

Eu creio que certo tipo de personalidade, a que tem temor de si mesma, a pessoa que leva uma máscara, que se impõe um papel, não deveria fumar maconha e sofrer seus efeitos porque o desnudaria, romperia seu casco de rotinas. O cânhamo tem o poder de revelar esta diferença radical entre o aspecto e o interior das pessoas, então todas as pessoas que vivem disfarçadas não deveriam fumá-la.

O que opina do crack?

Fumei crack e acho que é mais euforizante, mais gratificante para o usuário que a cocaína. É dirigida a um público de poder aquisitivo não muito alto, porque ainda não está refinada. É muito mais barato, só é pasta base. Não precisa ter respeito pelo conhecimento científico. Por exemplo: o crack não é mais tóxico que a cocaína. O que acontece é: quem toma crack? Os negros mais ferrados dos EUA. Os adolescentes com menos perspectivas profissionais. As drogas mais perigosas do mundo, as que podem realmente enlouquecer você, são vendidas nas farmácias e são os neurolépticos.

Que tipo de drogas que ainda virão que emocionam o senhor?

A 2CB ou afro nexus. Outro produto da grande mente de Shulgin. Não tem muito poder visionário, mas possui uma capacidade introspectiva e afrodisíaca que, em minha opinião, é a principal aspirante a favorita no século 21. Espero que cada vez façam drogas mais ativas. Quer dizer, que com menos quantidade tenha maior efeito. E também drogas que tenham um efeito intenso, mas breve. A vida moderna não te permite viajar como com a mescalina, umas 20 horas. Agora nos interessam os fármacos que nos permitam, em uma ou duas horas, resolver o nó psicológico antes vinculado a drogas como a mescalina. Creio que tanto a indústria química legal como a ilegal estão em uma busca frenética por princípios cada vez mais puros, mais potentes e ao mesmo tempo de ação mais breve, que com menos impregnação dos tecidos orgânicos tenham os mesmos efeitos. Por exemplo: todos que amamos o tabaco, o que realmente amamos é a nicotina. Por que produzir a grande liberação de nicotina buscada com a ajuda de uma brasa, se podemos metê-la rapidamente em um aparelhinho que a vaporize e que, sem a necessidade de produzir alcatrão, sem necessidade de combustão, libere nicotina para que nós possamos absorver um pouco?

Que droga o senhor não pôde provar que gostaria?

Nenhuma, todas as que me chamaram a atenção provei.

Sentiu que as drogas alterem a química do corpo, e que essa alteração seja negativa?

Não. Se você entra numa ordem religiosa e faz voto de pobreza, obediência e castidade, tem uma alteração química muito mais potente do que tomando uma mescla de heroína e cocaína. Se você se mortifica e pratica o jejum, cria em seu corpo um efeito muito parecido ao das drogas. Nós somos uma bomba química. O que acontece é que há um êxtase, digamos, digno –o que se consegue com os votos de pobreza, castidade, obediência e mortificação– e um êxtase indigno, que se consegue tomando RC25 ou morfina. São coisas que dizem os ignorantes, os fanáticos, os dogmáticos.

Quando se pensa no movimento xamânico…

Os xamãs são os médicos e diretores espirituais das sociedades simples. Nas sociedades complexas, como as que temos agora, as soluções xamânicas não parecem úteis. Conheci xamãs, mas não me pareceram pessoas mais respeitáveis do que qualquer outra, tampouco menos.

O senhor crê que todos deveríamos ter livre acesso a tudo?

Aos poucos, sim. O que acontece é que cada droga deveria ter seu lugar de venda. Em meu modo de ver, deviam vender em pontos diferentes. A de paz e energia –heroína e cocaína– e as hiper perigosas – beladona, datura – na farmácia. As de viagem, que as tenham nos departamentos de antropologia, ciência e artes das universidades porque ajudam a capacidade criativa. As básicas, ou seja, as de maior uso, como a maconha, em supermercados.

A respeito da educação, o que é necessário transmitir para nossos filhos?

Amor próprio e senso estético. Conscientizar que estão fazendo uma experiência científica ao tomar drogas, que estão indo por um terreno do qual vão tirar informações. Que as drogas os ajudem a conhecer melhor o que é a condição humana, intelectual e emocionalmente.

Qual deve ser a atitude no momento que se libere tudo, quando não houver proibição?

Amar a si próprio. A razão para tomar drogas é conhecer a si mesmo. Você precisa tomá-las amando a si mesmo, se respeitando e, naturalmente, respeitando os demais. Só respeita os demais quem respeita a si mesmo. A vida tem uns altos e baixos evidentes, além de ter que ir envelhecendo e sofrer de doenças. Muitas vezes nos faltam horizontes, outras vezes sentimos dores, outras vezes, falta de energia, uma apatia que nos faz indolentes e nos faz perder oportunidades de ascender, de ter uma vida melhor. As drogas estão aí como doadoras genéricas de paz, de energia e de abstração. Que as usemos assim ou não, depende de cada indivíduo. Os automóveis também servem para nos locomovermos de um lado para o outro e há insensatos que vão e matam cinco e em seguida se matam a si mesmos…

 (Para saber mais sobre Antonio Escohotado: www.escohotado.org)

          

                Por Cynara Menezes                                               Em BLOG

                @cynaramenezes                                                 TAGs: drogas, entrevistas,

segunda-feira, 4 de maio de 2020


POR QUE NÃO DEVEMOS VOLTAR ÀS AULAS PRESENCIAIS OU REMOTAS AGORA

De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o azul convida os meninos,
 as nuvens desenrolam-se, lentas como, quem vai inventando preguiçosamente uma história sem fim...
Sem fim é a aula: e nada acontece, nada... Bocejos e moscas. (QUINTANA, 2005, p. 30)

Nas instituições de nível superior (IES), sejam públicas ou privadas, temos sido pressionados para continuar nossas atividades curriculares, e não cancelarmos o semestre letivo. As IES particulares exercem pressão, tendo como instrumento de “negociação” o próprio emprego dos docentes e, majoritariamente, decidiram não interromper as aulas e manter o chamado “Ensino à Distância” (EaD). Neste caso, se algum professor não as ministras remotamente ¾ mesmo alegando que tais atividades exigem experiencia singular, com didática e materiais específicos para ser ministrada com qualidade ¾ poderá ser demitido. Nas IES públicas, a demissão sumária sem discussão com toda a comunidade acadêmica, pelo menos em tese, é inadmissível. Em assim sendo, desejo somar argumentos a essa discussão sobre se mantemos ou não as atividades curriculares, nesse momento de crise sem precedentes, onde somam-se grave pandemia e grave crise política no Brasil.
Certamente este é o momento mais difícil de toda uma geração, em que a defesa da saúde humana, vem imiscuída de tantos temas como: solidariedade, pobreza, destruição do mundo, vida pós e transumana, etc. Deste modo, nos determos em cronogramas acadêmicos em meio a uma pandemia mortal, não me parece razoável. Deixo ainda mais claro: em isolamento social, nós professores, alguns funcionários administrativos e estudantes, não nos isolamos dos afetos que emergem do que está acontecendo na vida social brasileira e mundial. Que afetos são esses?
1) Está ocorrendo um total desrespeito a dignidade humana, especialmente de empobrecidos que, se antes eram obrigados a se aglomerar em favelas, agora também são obrigados a se aglomerar em filas de auxílios financeiros e alimentares e filas de hospitais, tendo de decidirem se morrem de forme em casa ou se morrem pelo novo coronavírus em busca de miseráveis seiscentos reais.
2) Se antes o colapso capitalista de exclusão e assassinato de negros descendentes de escravos era abafado, agora o vírus fez tudo isso vir à superfície de modo explícito, sem que ninguém possa mais esconder. E vemos uma política, lamentavelmente exitosa, de ausência absoluta de solidariedade pelos moradores de favelas, empobrecidos propositalmente por um sistema econômico excludente, que agora, como sempre, tem a frente, só que de modo desvelado e extremoso, um governante que zomba daqueles que estão morrendo. Voltar as aulas como se nada disso estivesse acontecendo, é exigir de nós, a mesma frieza, elencando temas que possam distrair a atenção de estudantes e lhes anestesiar a sensibilidade à dor do outro. E se por acaso, nos determos a discutir essa situação, seremos execrados, pelos que exigem a nossa volta, porque querem exatamente isso: que a ciência se ajoelhe aos pés da mediocridade que nega o outro como parte da nossa vida, e nega ou outro a ter uma vida digna. O outro para poucos, mas muito bem organizados, nada vale, se não se ajoelham ao mundo autoritário que zomba de quem não segue sua cartilha de morte e não hesita em puxar o gatilho a quem se opõem ao seu caminho.
3) Todos nós profissionais de saúde sabemos que sem respiradores a morte por COVI-19 aumenta drasticamente. O vírus inunda o pulmão de líquido e não se pode respirar sem máquina. Quanto mais, apoiarmos um certo “Brasil” que nega essa realidade, fingindo que nada disso está acontecendo, ministrando aulas, contribuímos para que pessoas, imaginem esse mundo de normalidade e, como consequência, voltem às atividades cotidianas que realizam antes da pandemia, ignorando-a. Essa normalidade que insisto em dizer, se faz na absoluto desprezo pelo outro que julgamos não ser um igual. Voltar às aulas, é mantermos a zona de conforto das universidades que, em um passe de mágica, não se sentem desconfortáveis com uma pandemia mundial que simplesmente põem em risco a vida humana, especialmente, a vida humana que muitos insistem em considerar desprezível: a dos humanos negros, descendentes de humanos que foram  escravizados, assassinados  e empobrecidos.
4) No Ceará, onde vivo e agora sobrevivo, os leitos de UTI, onde os respiradores são item obrigatório estão com números assustadores, quase 100% ocupados. Deu pra entender? Já começaram, pelo país afora, a ocorrer mortes que poderiam ser evitadas se o SUS tivesse sido prioridade de todos os governos anteriores a pandemia. Os governos da chamada esquerda, construíram o SUS, um sistema de saúde pública com gratuidade universal, muito bem estruturado, mas que precisa de investimentos financeiros e de profissionais com essa perspectiva de saúde coletiva e pública. Mas, negociaram o Ministério da Saúde e, de certo modo, favoreceram o seu desmonte a ponto de hoje termos mortes que poderiam ser evitáveis sim.  Montar novas UTIs mesmo que em hospitais de campanha, é muito complicado para ser feito em tempo curto, ainda mais quando o Governo Federal bolsonarista expulsou médicos e terminou a parceria com a OPAS, alegando, insanamente, o curso de uma revolução comunista. Àquela altura dos acontecimentos nos calamos e, agora, colhemos os frutos podres dessa política de desmonte do SUS. Mas, querem que tenhamos tranquilidade para voltar às aulas sem tocar nesse assunto. Querem uma ciência em redoma mentirosa, pregando, como insanos, que a sociedade brasileira está caminhando, porque as “instituições funcionam”. Resta discutirmos nessas aulas: funcionam para quem? Podemos discutir isso? Ou daremos continuidade a formação de profissionais enredomados na busca de lucros, mesmo diante do sofrimento alheio?
5) Vivemos o pior momento para termos uma pandemia: governo neofascista e com alguns dirigentes de universidades pressionados para que colaborem com o Governo, mantendo a vida em cidades Potemkin (o marechal Grigori Alexandrovich Potemkin, no século XVII, na Rússia, em região devastada por guerras, montou uma cidade cenográfica no caminho por onde passava a Tsarina Catarina da Rússia, para iludi-la de normalidade). As universidade não podem colaborar com a montagem de cidades “Potemkin”, onde professores montam cenários em aulas presenciais ou não, para que os seus dirigentes locais e nacionais, (isso inclui o  Ministro da “Educação”), desfilem elogiando uma falsa “normalidade”, armada com dinheiro público e ciência imersa em si mesma, sem qualquer sensibilidade a vida humana que, no Brasil, hoje, ultrapassa sete mil mortos. Em uma das maiores emoções vividas no Brasil, a lamentável queda do avião com a equipe da Associação Chapecoense de Futebol, havia a bordo 77 passageiros, dos quais apenas seis sobreviveram. Hoje no Brasil, temos cerca de 90 “aviões” que caíram lotados de brasileiros afetados pelo novo coronavírus e sequer temos o luto oficial do Governo Federal, ao contrário, quer que voltemos à normalidade das “aulas Potemkin”.
6) O que caracteriza esse Governo é a ignorância aliada à perversão, que unidos a pandemia, já estão proporcionando um efeito devastador sobre todos nós, pois além das milhares de mortes atuais que poderiam ser bem menores caso tivéssemos adotado oficialmente o isolamento social e financiado brasileiros para que não precisassem circular em busca de sobrevivência (nem vou agora questionar essa forma de esmola).
7) Esse será o item mais longo, em busca de cartografar o presente.
Potencializado em nossa “sociedade de risco”, em nossa “modernidade tardia (BECK, 1998; SPINK, 2001; MÉLLO & FRANÇA, no prelo), há um trauma coletivo, que é advindo de muitas situações, que vão desde as mortes que acumulam corpos de semelhantes aos milhares, em um necessário luto coletivo, até a sensação de perda de tempo por simplesmente termos parado a cadeia produtivista, que só destrói, e que provocou a disseminação do vírus em um capitalismo acelerado que não admite o “fechamento de portos” ou a suspensão das produções. Portanto, que fique explícito que estamos vivendo um trauma coletivo. Entendo o conceito de trauma como uma ruptura que provoca certa descontinuidade da vida, que gera desprazer que, algumas vezes, pode ser da ordem do insuportável. Forças sociais nos invadem com conteúdos consciente e inconscientes que são disruptivos e nos lançam inúmeros questionamentos: quem sobrevive, como sobrevive, quem morre, quais motivos dessa morte? Devo continuar a vida no mesmo ritmo, fazendo as mesmas coisas, com as mesmas pessoas? Que mundo queremos pós-pandemia? Como pode haver pessoas que desprezam o diferente, desprezam a morte alheia? etc. Isso tem efeitos diversos que vão de podem impulsionar para mudanças e/ou podem provocar paralisias (característica da vida humana em dualismos pulsional tão bem descrito pelo nosso velho Freud, nos idos de 1920). Não é simples viver tudo isso ignorando e evitando reconhecer o momento de graves perdas que estamos vivendo.
O aumento do silêncio das ruas e cidades, grita em nosso mundo menos afoito, pedindo passagem a outra coisa que nem sabemos bem o que é. As mortes e nossa reclusão (que parece infinda), se unem com certa vivência do tempo, (este ¾ inspirado em Edgar Allan Poe ¾ entendo como cadeia de acontecimentos em trama) e dão a sensação de um mundo parado ou em retrocesso (não sei qual a sensação pior). Porém, estamos mergulhados em cadeias de acontecimentos que nos forçam a enfrentar a nossa finitude e o que ainda devemos e podemos viver. Claro que isso gera angústia e o silêncio do isolamento se faz grito em cada um nós, que busca sobreviver. Claro que buscamos sobreviver o tempo todo na sociedade capitalista excludente, mas nem nos damos conta. Só que agora a “conta” nós é apresentada.
As consequências da vida em isolamento não têm sido fáceis para ninguém. Exigindo de nós trabalho nas circunstâncias que descrevi antes. É sabido que o isolamento aumentou a violência doméstica e o uso abusivo ou compulsivo de algumas drogas, certamente os ansiolíticos. A vida chega ao seu limite suportável, quando somos impedidos de circular, tendo sido formados como animais nômades. Não podemos desprezar essa situação de tensão, zombando dela como da morte e do luto de outrem. Sim, nós professores também estamos com dificuldades de produzir, de preparar aulas como se nada disso estivesse acontecendo, de preparar debates que não sejam os de refletir, detidamente, sobre a pandemia, sobre o descalabro da resposta do Governo brasileiro a ela. E ainda tendo de nos dedicar a escrever o óbvio, para colegas professores e estudantes que, em fuga da “realidade”, exigem que retomemos nossas atividades “à distância” do momento grave em que o mundo humano está passando, e o Brasil, ainda mais, pois enfrenta pandemia e o vírus do autoritarismo e ignorância políticos. Não podemos exigir que estudantes, esqueçam tudo que está acontecendo e se concentrem em nossas aulas que pretendem aumentar sua alienação dos acontecimentos presentes. Voltar as atividade curriculares é como se disséssemos: estudantes, esqueçam as suas mortes familiares, a luta diária para se manterem vivos, permaneçam religiosamente antenados nas nossas aulas e nos trabalhos e provas que terão de fazer, esqueçam as notícias de morte de parentes e amigos, esqueçam o luto, anestesiem-se com nossas aulas e trabalhos. Fiquem paralisados em suas dores à espera do beijo redentor dos príncipes doutores, que enveredam pelo caminho de morte desse sistema mórbido. Ouçam a voz dos doutores que menosprezam a situação atual brasileira e suas dores, permaneçam trabalhando, aprendendo, estudando. Até podem se divertir e fazer compras, bastando ter uma rede virtual e digitar algumas palavras-chaves na Internet. É super simples continuar a vida, “basta transferir a sua vida real para a virtual, um upload e pronto, temos uma nova vida prontinha para você na segurança do seu lar”, como afirmou, criticamente, a jornalista Camila Goytacaz em texto recente (https://medium.com/@camilagoytacaz/luto-e-celebra%C3%A7%C3%A3o-no-isolamento-social-1a693f4e7bfe).
8) Voltar às aulas então, seja por videoconferência ou por modo presencial, e de forma consciente ou não, é ignorar o que está acontecendo, e fazer parte da perversão mortal em curso. Eu, e colegas professores, não temos condições de, em luto por atuais 5.000 mortes e milhares de outras em curso, ministrar aulas ignorando tudo isso. Exigir que estudantes também ignorem tudo isso e se concentrem no que vamos ministrar é ser perverso tanto quanto um governo que diz pra todos que ignorem a pandemia e voltem a normalidade. Não queremos entrar nessa lista da tanatopolítica.
9) Para se ter ideia ministro uma disciplina com 50 estudantes que se aglomeram na sala. Os estágios e atividades de Pesquisa e Extensão que coordeno são em regiões da periferia com maior índice de morte por COVID-10. E acreditem, regiões onde os grupos de tráfico de drogas resolveram aproveitar a pandemia para ampliar suas guerras territoriais com mais mortes. Temos mais esse quadro violento para assentar em nossas análises.  Não vou colocar estudantes em risco de forma nenhuma. Digo aos defensores de atividades virtuais a qualquer custo, sequer podemos continuar atendendo as pessoas que acompanhávamos, e isso nos angustia, porque várias delas vivem nas ruas sem celular, e tantas outras não tem acesso regular a Internet. Sim prezadas e prezados, não estamos falando de atendimentos higienizados em salas confortáveis de consultórios particulares. Estamos falando de uma Psicologia, que vai além dos muros protegidos das universidades e se imiscui nas periferias como todos deveriam fazer em nossas universidades públicas. Sequer estamos conseguindo manter contato, por meio de celular, com as pessoas que estávamos acompanhando. Elas se dispersaram e quiçá estejam bem de saúde e vivas. Estão lutando para sobreviver, em filas intermináveis em portas de bancos ou em portas de hospitais.
Em vias de finalizar, digo-lhes que não está sendo fácil cartografar o Olímpio da mediocridade política em sua versão caricata da Tradição Família e Pátria (TFP). Mas foi o que tentei fazer acima, tentando mostrar que, paradoxalmente, uma ausência de atividades curriculares, é também presença importante da vida universitária na sociedade, instigando e dando exemplo de cuidado de si e de outros.
Diante do exposto, com esse quadro de nossas cidades sem enfeites natalinos, enfeites carnavalescos, ou se preparando para as festas juninas, sem enfeites que poderiam disfarçar situações de luta contra a morte, devemos defender o cancelamento do semestre e suspensão de todas as atividades acadêmicas curriculares, exceto aquelas onde podemos exercer a função de educadores que vai para além do cumprimento curricular e se faz em atuação ética de preservar a vida. Ou seja, nada é mais urgente agora do que o cuidado em saúde de si e de outros.
Devemos ser favoráveis a suspensão de todas as nossas atividades acadêmicas curriculares e cancelamento do semestre, até que haja condições de um retorno mais regular, e em situação de menor gravidade de adoecimentos de todos os tipos. Isso é lamentável por um lado, na medida em que amamos trabalhar na universidade pública; também, importante, por outro lado, porque amar esse trabalho, nos impõem, agora, a suspensão das atividades curriculares para preservar a cada um de nós, para que voltemos mais potentes.
Que nós, professores e pesquisadores, estudantes e funcionários administrativos, em conjunto com os que exercem a difícil função de gerir as universidades públicas (sofrendo pressão de governos insensíveis às nossas dores), resistamos a volta da “normalidade” e, novamente possamos dar o exemplo de que não há como defender, cientificamente, a ignorância dos que insistem em desconhecer a gravidade do momento que vivemos. Que a lição para a sociedade em geral seja a de que as universidades públicas, mesmo em “isolamento”, nos mantemos mobilizados e sensíveis as dores do mundo. Ainda que sendo atacados intensamente e com orçamentos reduzidos, 95% da produção científica do Brasil nas bases internacionais deve-se a nossa dedicação e capacidade de pesquisa nas universidades públicas. Por isso, mais do que nunca, defendemos a universidade pública gratuita e crítica e o fortalecimento do SUS. À sociedade brasileira importa mais essa defesa que cumprimentos curriculares formais, sem o compromisso urgente de defender a vida. A maior lição que temos agora é a de entender que todas as saídas para a fluidez da vida humana, são coletivas.
Lembro que, sem exceção, todos os eventos científicos importantes da Psicologia, (como o Encontro de Pesquisadores da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia - ANPEPP) e encontros de saberes afins (Saúde Coletiva, Saúde Mental, por exemplo), foram adiados por tempo indeterminado. Isso demonstra a capacidade de profissionais pesquisadores acadêmicos, em compreender que não estamos vivendo um momento simples, a ponto de exigir que, de uma hora pra outra, nos reuníssemos, presencialmente ou virtualmente, insensíveis ao que nossos agrupamentos sociais, no mundo todo, vivem.
Voltar às atividades curriculares, com o mundo impedido de entrar em nossas aulas tediosas e sem fim, é dar aulas às moscas. É momento de cuidarmos, para que, em período seguinte, sem pandemia, todos voltemos ainda mais dedicados, com saúde, para as atividades curriculares, deixando as portas e janelas universitárias abertas, para que o mundo entre e continuemos a recriá-lo.
Fortaleza (CE), 04 de maio de 2010.

Prof. Dr. Ricardo Pimentel Méllo
(Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará)

Referências:
FREUD, Sigmund. Más allá del principio de placer [1920]. Tradução de José L. Etcheverry. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Vol. XVIII. Buenos Aires: Amorrortu editores, 2006.
POE, Edgar Allan. O gato preto. In: Histórias Extraordinárias. Trad. Brenno Silveira. São Paulo: Abril, 2003. p. 35-49.
QUINTANA, Mario. Lili inventa o mundo. Rio de Janeiro: Global, 2005.
MÉLLO, Ricardo Pimentel; França, Luara da Costa. Sociedade de risco e securitarização da vida: o “adolescente perigoso” e a produção do “tipo suspeito”. In: Rosa, Pablo Ornelas; Moraes, Pedro Rodolfo Bodê de; Souza, Aknaton Toczek; Moraes, Maristela de Melo. Drogas e Sistema de Justiça Criminal (no prelo).
SPINK, Mary Jane Paris. Trópicos do discurso sobre risco: risco-aventura como metáfora na modernidade tardia. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 17, n. 6, Dec. 2001. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/csp/v17n6/6944.pdf. Acesso em 8 de março de 2002.